Parte I
Ela estava deitada sobre a cama.
Passara a noite toda acordada, pensando na morte do seu amado. Era duro pensar no que havia ocorrido. Era duro pensar na vida daqui pra frente. Como ela poderia viver sem ele? Nao queria acreditar nisso. Disse para si mesma: "Tudo isso é mentira. Ele esta vivo. E a essa altura deve estar dormindo. "Nao vou ligar pra ele agora, porque nao quero acorda-lo. E pensando nisso.Adormeceu.
Quando acordara, ja devia ser uma hora da tarde. Levantou. Olhou pela janela o ceu estava tao azul. Que ela so de olha-lo se sentiu tranquila. Esqueceu do que havia ocorrido. Naquela noite, uma enfermeira ligara porque achara o telefone dela na carteira dele. Ela queria saber se ela o conhecia. Ela disse que sim, assustada. Entao, a enfermeira lhe informara que Marcelo Almeida Souza estava morto. Pediu para que ela vie disse ao hospital. Ela nem ouvira nada mais do que a mulher dissera por que o telefone escapulira por entre os seus dedos. Sua mae assustada pediu para que ela lhe informa-se quem havia ligado aquela hora. Mas ela nem ouvira a mae. E se trancara no quarto. Chorara a noite toda. Pensara em Deus como Deus podia fazer uma coisa dessas com ela? Tirou a unica coisa que era mais importante na vida dela.
Lembrou-se dele. Do modo como eles se conheceram. Ele era um escritor. E ela era professora. Sempre fora seu sonho. Ensinar para crianças de baixa renda. Ele um dia teve la na escola onde ela trabalhava no Otaviano Costa. Sua irma tinha ligado para que ele fosse pegar o sobrinho no colegio. Pois ela trabalharia mais cedo naquele dia. Ele tinha chegado ate cedo. E esperara o sobrinho do lado de fora da sala de aula. Quando tocara o sinal, o sobrinho correu pra ele e o abraçou. E puxara a sua mao para lhe apresentar a sua professora. Desde, aquele dia ele ia sempre la. Tinha se interessado por ela. Ela era mais moça que ele. Ela era morena. Seus cabelos eram pretos. E caiam-lhe sobre as costas. Suas feiçoes lembravam-na uma india. Ja ele era alto, forte, seus cabelos eram ondulados. Suas feiçoes eram grosseiras, no entanto.
O romance tinha se originado quando ele a convidara para sair.Desde entao,eles se viam com mais frequencia. Lembrava-se sempre do modo como ele a olhava e a tratava quando estava com os amigos dele, ele era sempre gentil, e sempre mandava flores pra ela. As vezes chegavam todas as manhas, mas ela pedira a ele que nao fizesse mais isso. Entao, ele resolvera mandar de vez em quando sempre ele mandava mensagens no celular dela como "Eu te amo, Linda...”
Suas amigas morriam de inveja. Ele nao era rico. Sua familia era bem humilde. Ele era sempre tao atencioso. E sempre a levava e buscava no seu trabalho... Os finais de semana deles eram sempre em casa, na balada, na praia, no cinema...
Ja estavam de casamento marcado. Daqui a um mes.
Ja eram quase tres e ela ficou morrendo de vontade de ligar pra ele. Por que nao?Ha essa hora ele ja devia estar acordado... Quem atendera era a irma dele Alo?Oi, sou eu Aline. Ah, disse a outra. Seu irmao esta ai? Ele nao esta... Ainda nao voltara da casa do meu tio. Como vou contar isso pra ela?Preciso te contar uma coisa. Esta sentada?O que foi que aconteceu? Deixara o telefone na mao. Lembrando-se do que a enfermeira lhe disse. Entao... Era verdade?E saiu desbandeirada da sala. A mae que estava na sala. Pensou: "O que aconteceu com essa menina?"
A familia dele tinha receio de contar, mas era preciso. Ela tinha que saber, pois eram noivos. Foram ate la de carro. Dona Magnolia (mae de Aline) os atendeu. Disse para que eles esperassem um momento, pois a filha trancara-se no quarto. Foi ate o quarto de Aline. Aline chorava desesperada. Bateu e disse filha... Mas Aline apenas disse nao quero falar com ninguem!Sentia raiva de Deus. Era ela quem deveria morrer no lugar dele. Por que ele nao a esperou?Assim, eles teriam morrido juntos.
A mae pedia desculpas pelo comportamento da filha. Nao entendia o porque que ela estava assim. Entao, a familia contara-lhe todo o ocorrido.
Ela ate tentou falar com sua filha depois disso. Mas era impossivel. Aline nao queria ver ninguem mesmo!
Nos dias seguintes tinha sido a mesma coisa. Aline nao queria comer. Viver pra que?Pensava ela.
Largara o emprego nao aguentava mais exercer a profissao.Dona Magnolia nao aguentava mais essa situaçao. Queria fazer algo para sua menininha voltar ao que era: Feliz. Seu Antonio (pai de Aline) tambem. Mas o que fariam?
Ja passaram alguns meses que Marcelo tinha morrido, mas Aline ainda continuava na mesma.
Ja estava perto do aniversario de Aline. Ela faria 25 anos.
Dona Magnolia tivera uma ideia: faria uma festa surpresa para sua filha.Quem sabe assim ela nao se animava um pouco?
Aline nem se dera conta de que era seu aniversario hoje. Acordara la pelas dez. E estava morrendo de fome. Percebeu que nao tinha ninguem em casa e deu uma passada na cozinha e pegou um sanduiche que encontrara em cima da mesa. Foi pro quarto de novo.
Ha tanto tempo que estava dentro daquele quarto. E ficou imaginando o que iria fazer. Ela desejou varias vezes que o dia acabasse. Queria que tudo isso tivesse um fim.
Foi ate o pequeno escritorio de sua casa. Resolvera que leria algum livro. Viu varios titulos. Mas nenhum que chamasse a sua atençao.
Olhou para outra pilha de livros.Tinha livros da faculdade,alguns de botanica,outros de romance...Foi nesse momento que ela se deparou no livro muito antigo.As paginas estavam soltas.Dentro dele encontrou uma folha de papel.Pegou a folha e leu:"Perdoando Deus".Se falasse que encontrara um conto de Clarisse Lispector com um titulo desses para sua amiga Maricelia.Ela simplesmente diria:"Isso e um sinal.Voce deveria prestar mais atençao nessas coisas,line".Mas,ela nao acreditava nessas coisas.Nao acreditava nem em sinais e nem no destino.Preferia ver as coisas de uma outra forma.Acreditava que açao de cada um mudava as coisas.